Paulinho França, nos caminhos da bola

La Pelota conta pra você, a história do atacante caçadorense


Desde as primeiras partidas, no campinho de terra do Bairro Tedesco, em Caçador, até chegar ao futebol profissional nos grandes estádios de Santa Catarina, Paulinho França, sempre mostrou muita qualidade, velocidade e faro de gol. Com seus dribles desconsertantes e muita entrega tática, Paulinho gravou seu nome, como uma das referências do futebol da região.

Paulinho França, o terceiro da direita, para a esquerda, no extinto campo de terra do Bairro Tedesco, em Caçador.

Dá série “Nos Caminhos da Bola”, o La Pelota conta um pouco da história do atacante Paulo Roberto França, no futebol profissional e amador.

O início

No ano de 1985, na época com apenas 11 anos de idade, Paulinho começou a jogar futebol no Colégio onde estudava e nas escolinhas de Futsal da sua cidade natal, Caçador, mais precisamente no antigo Ginásio Juventude.

  • Data de nascimento: 19 de agosto de 1974
O primeiro título e já com uma história curiosa

Meu primeiro título no futebol, foi com 14 anos de idade, no Campeonato Interbairros de Caçador (de 15 à 18 anos). Detalhe importante é que a idade mínima para participar do torneio era de 15 anos. Eu não tinha idade suficiente. Ludibriando o regulamento e a organização, participei da equipe, logicamente com outro nome/sobrenome, mas sem eu saber (risos). Fato é, que joguei o campeonato e ficamos campeões. Lembro depois de estar comemorando, me chamaram para entregar troféu de melhor jogador, com outro sobrenome. Recordo que o treinador, mandou eu ir pegar o troféu e não comentar nada sobre o sobrenome errado. Anos mais tarde, fiquei sabendo, de tal fato.

O primeiro título, veio aos 14 anos
Com 16 anos, já estava na Caçadorense

Sendo um dos destaques da equipe da Tedesco, no Campeonato Amador da cidade, ainda adolescente, com 16 anos, Paulinho já estava treinando na categoria de base da antiga Caçadorense.

 Em 1989, ganhei da Liga Atlética Caçadorense, um certificado de Atleta Revelação e me tornei o atleta mais novo a jogar um campeonato amador na cidade de Caçador. 

Trabalho ou futebol?

Em 1989/1990, Paulinho trabalhava na maior empresa de calçados do estado, a extinta Sulca. Neste período a Caçadorense montou uma equipe para disputar a 1ª Divisão do Catarinense. França foi convidado a treinar com o time profissional, após ser um dos destaques no juniores. Em um certo jogo, em Criciúma, no Estádio Heriberto Hulse, Paulinho fez um gol e foi destaque na pauta da imprensa, o que chamou a atenção de olheiros, interessados no jovem atleta.

De Criciúma, veio dois olheiros, falar comigo e com os dirigentes da Caçadorense, a pedido do Luiz Felipe Scolari, o Felipão. Infelizmente devido a minha idade; e por estar trabalhando (precisava ajudar no sustento da família), o Criciúma não tinha como pagar (as cifras no futebol eram outras naquela época); ou seja a negociação melou. No ano seguinte, em 1991, Criciúma ficou com o inédito título da Copa do Brasil, o primeiro título de expressão do Felipão, que mais tarde viria a comandar o penta da seleção brasileira. Saber lá, se eu não poderia estar naquele elenco do Criciúma, em 91? Foi sem dúvidas, minha primeira “frustração” no futebol.

Paulinho e Bibico, em ação pelo Kindermann. Ao fundo, o famoso árbitro Margarida.

Devido as boas atuações, em 1993, Paulinho recebeu o convite para jogar o Campeonato Suburbano, em Curitiba, no time do Trieste, que era a base dos juniores do Coritiba e que acabou sagrou-se campeão do torneio.

Em 1995, Paulinho jogou a Série C do Campeonato Brasileiro pela Caçadorense. Na chave ‘regionalizada’ do tricolor do Contestado, as equipes do União Bandeirantes (PR) e Matsubara (PR), que contava em seu elenco, com o craque Neto. Apenas uma equipe se classificava, infelizmente a Caçadorense não somou nenhum ponto e logicamente não conquistou a vaga para a próxima fase, e acabou abrindo falência.

Paulinho França, no centro da imagem. A foto é no Estádio Doutor Carlos Alberto Costa Neves, em Caçador, o Caldeirão da Baixada, onde o atleta brilhou inúmeras vezes.

Vida que segue, e em 1996, Paulinho França, foi parar na Camboriuense. O que acabou ficando marcado, na sua estada, em Camboriú, no litoral catarinense, foi o convite para participar do amistoso festivo entre Amigos do Márcio Santos e Amigos do Emerson.

Paulinho e Emerson

Após o jogo festivo, o volante Emerson me falou para eu continuar firme no futebol que eu tinha potencial, para jogar em qualquer time grande.

Em 1997, o senhor Salésio Kindermann, grande apoiador do esporte e também incentivador da carreira de Paulinho, começou com o futebol masculino ,em Caçador e convidou Paulinho, a retornar para sua terra natal.

Paulinho, na Caçadorense. O terceiro agachado, da esquerda para a direita
Título da Taça Record, em 1998, com golaço na final

No ano de 1998, a Caçadorense conquistou a Taça Record de Futebol, vencendo na decisão o Olaria de Xanxerê, onde atuava o lateral Patrício (que no ano seguinte, em 1999, viria a atuar junto com Paulinho na Caçadorense; e depois ganhando cenário brasileiro, se transferindo para o Paraná, Grêmio, Vasco, entre outros).

Cabinho, centrovante caçadorense, que é o 5º maior artilheiro da história do Paysandu, foi o treinador da conquista da Taça Record do Kindermann

Fui o destaque daquele jogo final. Precisávamos ganhar no tempo normal e na prorrogação para ser campeão, e foi o que aconteceu. Ganhamos de 2 a 1, nos 90 minutos; fiz um gol quase do meio de campo e ganhamos na prorrogação, onde fiz o gol do título, foi uma comemoração enorme. Tal conquista foi um passo importante, para no ano seguinte, em 1999, disputarmos a 1ª Divisão do Catarinense.

Recorte de jornal da época, enaltecendo o golaço de Paulinho na decisão da Copa Record, em 1998
A salmonella sepultou a chance de título, em Joaçaba

Em 1999, após terminada a temporada com a Caçadorense, Paulinho foi emprestado para o Joaçaba, que naquele ano disputou a Segundona do Catarinense.

Estávamos entre os semifinalistas da 2ª Divisão. Sem demagogias, mas tínhamos o melhor time. No segundo turno estávamos invictos. Foi então que aconteceu o inesperado e um fato até engraçado (agora pelo menos). Devido a uma ingestão de comida contaminada com a bactéria salmonella, ficamos com sete jogadores fora dos jogos da semifinal, pois não deu tempo para recuperação. Juntamente, com outros seis jogadores, fiquei de fora e inclusive internado nos hospitais de Joaçaba e Luzerna. Infelizmente nosso treinador, teve que colocar seis jogadores do juniores, e acabamos perdendo a semifinal de 1 a 0 para o Blumenauense. Lamento; uma pena, pois nos tínhamos times para ser campeão, o time era muito forte. Bibico, Willian Carioca e eu fomos emprestados pelo Kindermann, para atuar, em Joaçaba.

A quase ida para o América do Rio de Janeiro

Retornando a Caçador, no ano 2000, o empresário Salésio novamente montou equipe para disputar a 1ª Divisão. Paulinho França foi um dos jogadores destaques naquela temporada, inclusive recebeu convite para fazer teste no América do Rio de Janeiro, mas não houve acerto de valores entre os empresários.

Orgulho: atuação de destaque em Chapecó

Neste mesmo ano, o Kindermann jogou contra a Chapecoense, no Estádio Índio Condá, em Chapecó, onde Paulinho mais uma vez foi um dos destaques do jogo, fato bastante comum e rotineiro na época.

Ganhamos da Chapecoense por 2 a 0. Por um lado um episódio triste e outro para mim, marcante e histórico. O triste, foi que o nosso jogador Tita quebrou a perna (fratura exposta) ainda no primeiro tempo, após uma entrada do jogador Pitbull. Isso nos deu mais vontade de ganhar e no segundo tempo fizemos dois. Eu fiz um dos gols mais bonitos da competição e acabei recebendo um convite no final do Campeonato para retirar o prêmio na festa dos melhores do ano. Foi um imenso orgulho para mim. Infelizmente não pude participar da festa, pois fui treinar em Curitiba, sonhando com a ida ao exterior.

Convite da RBS para participar da premiação dos Melhores do Campeonato Catainense 2000
  • O 1º gol do Kindermann, na temporada 2000, foi marcado por Paulinho França, diante do Tubarão. O goleiro da equipe adversária era Zé Carlos (já falecido; e campeão com o Flamengo, em 1987).

Em 2000 ainda, o na época jogador Mauro Ovelha, que havia jogado junto com Paulinho, no Joaçaba, em 1999, veio a Caçador assistir o jogo entre a Caçadorense e o JEC/Joinville pelo quadrangular final. E mais uma vez, é chover no molhado, mais uma grande atuação de Paulinho.

Mauro Ovelha, falou com o Salésio para me emprestar para o Atlético Ibirama, pois ele que estava montando o time para 2° Divisão do ano seguinte. Chegando, em Ibirama, fui o destaque do time, artilheiro da competição com 11 gols; e o mais importante de tudo: fomos campeões, levando o Atlético para a 1ª Divisão. Após o término da competição foi feito um acerto com o Salésio, que era meu empresário na época, e eu permaneci por mais um ano de contrato no clube para jogar a 1ª Divisão, onde ficamos em 3º lugar. Posso afirmar que ‘quase’ ficamos campeões do estado. Empatamos, sem gols com o Figueirense em casa, após derrota de 1 a 0, lá em Florianópolis no primeiro jogo. O Figueira, neste ano ficou com o título.

Campeão Catarinense da 2ª Divisão, em 2001, com o Atlético Ibirama. O goleiro Márcio, em 2006/2007, atuou no VEC de Videira
Bicho ‘engordado’

Quando estava no Ibirama ficamos campeões invictos. Recordo que seu Aires Marchetti, o presidente do time, ofereceu o famoso bicho para os jogadores: cada vitória, iriamos ganhar um prêmio extra, em dinheiro. Por azar dele (risos) jogamos o segundo turno até as finais sem perder um jogo sequer. Recordo que tinha o roupeiro Wallace que era bem humilde e era um grande parceiro nosso. Resolvemos fazer uma ‘vaquinha’ para ajudá-lo nas despesas de casa. A intenção foi ajudar a todos, desde o roupeiro até a cozinheira do clube. Foi lá também, neste período, que eu também aceitei a Jesus Cristo como meu único e suficiente salvador e me tornei evangélico.

Campeão em Ibirama
Ida a China? Passaporte negado!

No final da temporada, em 2001, Paulinho rumou a Curitiba, capital paranaense, onde ficou treinando no CT do Cajú, do Atlético Paranaense, por quinze dias, para um time de empresários, que tinha como objetivo negociar atletas para o exterior: mais precisamente para a China. Destas histórias do futebol, que talvez, alguns até nem acreditem; o passaporte não ficou pronto a tempo do embarque, e o sonho de ida ao exterior foi por ralo a baixo.

Fusão do Kindermann com a Chapecoense

Kindermann de Caçador e Chapecoense (que estava pra fechar as portas, pelas dificuldades financeiras), fixaram parceria, de 2002 a 2004, desta equipe se destacou por exemplo, Ademir Sopa, que veio a atuar no São Caetano. Infelizmente, o time não deu bons resultados e sem apoio financeiro, o Sr. Salésio Kindermann, decidiu não montar mais equipes masculinas.

Eu já cansado, de ficar rodando, sem ganhar dinheiro, sempre deixando de lado a família, decidi não mais jogar profissionalmente. Comecei então minha trajetória no futebol amador de Caçador e da região, onde felizmente conquistei inúmeros títulos, e acima de tudo, grandes amigos.

Caricatura de um fã, na época, em que atuava no Kindermann
Jogadores ‘famosos’ com quem jogou?

Patricio (Caçador), em Ibirama (com Adriano de Limeira, que teve passagem no Palmeiras, nos anos 90), em Camboriú (com Márcio Santos, Emerson, Gilmar Rinaldi. Lico, que jogou no Flamengo. foi meu treinador. No Ibirama, dois renomados treinadores comandaram Paulinho: um foi o goleiro Gasperin, bicampeão brasileiro com o Internacional nos anos 70 (cogitou levar França, para o Glória de Vacaria) e o outro, Roberto Cavalo.

Em Curitiba, quando estava treinando para ir para a China, o treinador era Marcos Aurélio que jogou no São Paulo. Teve também contato, com o Cris que jogou no Coritiba, com o atacante Ilan, que mais tarde atuou no Atlético Paranaense.

O futebol na minha época de profissional era muito difícil, não é como hoje, um negócio que evolve um caminhão de dinheiro. Infelizmente não ganhei dinheiro como vários jogadores da nossa época. Nós realmente jogávamos por amor a camisa. Nos times de menor expressão, o salário era pequeno, as dificuldades grandes, mas são aprendizados adquiridos, que levo para a minha vida.

QUE FASE! Episódio engraçado. Escalação com 12 jogadores

Em 1999, jogo entre Kindermann e Tubarão, o treinador Joaquinzinho na preleção, escalou doze jogadores: um atacante a mais.

Lembro que eu e o Carioca que jogamos o jogo passado pegamos o uniforme titular mesmo numero de camisa e já entramos em campo. Ficou aquela dúvida, pois os demais não sabiam quem ia jogar, de fato. O 12º jogador (escalado a mais) era o Roni, que daí foi questionar sobre a titularidade. Joaquinzinho respondeu que sonhou que o Roni iria fazer o gol no segundo tempo e disse para ele esperar no banco, por azar do treinador e do Roni ganhamos de 2 a 1: eu fiz um gol e o Carioca, o outro daí ele sequer colocou o Roni na partida. Se for contar as inúmeras histórias engraçadas, do técnico Joaquinzinho passaria um bom tempo falando…

Melhor jogador, em que atuou junto?

No ataque comigo, teve o Marcelo Carioca do Rio de Janeiro, jogava muito, forte, rápido, habilidoso. Já no amador, Bibico, ganhamos vários títulos juntos

Defendendo o São Luiz de Rio das Antas, concedendo entrevista ao na época repórter Luiz Roberto Damaceno
FUTEBOL AMADOR

No futebol amador, Paulinho foi ídolo, e em muitos clubes em que atuou, empilhou taças.

Bahia (Videira), Olímpico (Caçador), Itajiba (Faxinal dos Guedes), CAC (Caçador), Santelmo (Caçador), Pinheirinho (Pinheiro Preto), EC São Luiz (Rio das Antas), Santa Cecília, Atlético Vista Alegre (Videira), Grêmio da Penha Quarentinha (Videira), Santa Lúcia (Videira), Brunópolis, Napoli (Caçador), Pinheiros (Campos Novos), Udinese (Caçador).

Paulinho foi capitão do Pinheirinho, na conquista do Regional da LEOC, em 2004, sem dúvida a maior conquista do futebol pinheiropretense
Em 2007, Paulinho ajudou o Santelmo de Caçador a sair de uma longa fila de 34 anos, na espera pelo título da 1ª Divisão
PÓS FUTEBOL E A FAMÍLIA

Atualmente Paulinho França, com 45 anos, trabalha como gerente comercial, em Caçador. É casado, pai de quatro filhos: Andre, Jéssica, Rafaela e Théo. Tem duas netas: Laura e a Maitê.

Grande legado que leva do futebol e recado aos mais jovens.

Tudo o que você for fizer, faça bem feito, com excelência, para deixar sua marca, seu legado, sua história, pois o futebol assim, como a vida, passa muito rápido. Aproveite, seu tempo com coisas boas. Pra quem tem o sonho de ser jogador de futebol, corra atrás deste seu objetivo, cuide de sua saúde, de seu corpo. Nunca desista de seus sonhos, mas sempre com muita determinação, vontade, disciplina e vontade de querer vencer.

Mais fotos no facebook do La Pelota. Confira!

Texto: Gillian Olivo

Fotos: Arquivos Pessoais Paulinho França

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